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Chile e a conquista do novo mundo



A vitivinicultura chegou à América no final do século XV. O vinho, parte importante da celebração da eucaristia, deveria acompanhar os monges para seus rituais católicos, por isso, Cristóvão Colombo, em sua segunda expedição ao mundo novo, incluiu cortes das vitis viníferas em sua bagagem, plantadas em containers, para que sobrevivessem aos longos meses de travessia pelo oceano, chegando a terras caribenhas. No entanto, as condições de clima e solo não favoreceram o desenvolvimento das parreiras, restando apenas uma pequena produção para manutenção dos rituais católicos.


Somente com a chegada dos conquistadores às maiores altitudes, México e Califórnia, as uvas começam seu processo de adaptação em terras distantes – nas Américas.


Já no começo do século XVI (1536), as uvas chegaram ao Chile pelas mãos do Capitão Diego de Almagro, vindas, provavelmente, de Cuscu, Peru. E, em 1548, o monge Francisco de Carabantes introduziu a plantação sistemática de varietais vermelhas trazidas das Ilhas Canárias, quando em sua chegada ao território, em missão de paz.


E a primeira vinícola estabelecida no Chile foi por volta de 1550, por Francisco Aguirre, nas cidades de Copiapó e La Serena. Já, em Santiago, a primeira vinícola instalada foi em 1554, por Diego Garcia de Cáceres, mas ainda de forma insipiente, o que não logrou muito êxito em seus intentos.


Dez anos depois, o rei da Espanha transferiu a fazenda Macul (1564), para o conquistador espanhol Juan Jufré de Loayza, considerado, juntamente com Francisco Aguirre, o pioneiro da vitivinicultura no Chile. De rancho à propriedade vitivinícola, foi ele o fundador da Cousiño Macul que, com suas vinhas trazidas da Espanha, não só obteve êxito no cultivo e produção como, além do consumo interno, iniciou a exportação para o Peru e outras colônias espanholas.


Praticamente três séculos depois (1851), na propriedade Talagante, Silvestre Ochagavia introduz, lentamente, a substituição das videiras espanholas pelas francesas, trazendo ao mundo novo o repertório vitivinícola como hoje conhecemos.


Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Pino Noir, Syrah, Petit Verdot e as brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Semilion, Riesling, Gewürtraminer, dentre outras, estão, hoje, inseridas em praticamente todas as cartas de vinhos pelo mundo.


No final do século XIX, o mundo foi surpreendido com uma grande praga que devastou hectares e hectares de vinhas – a Filoxera. O primeiro caso documentado aconteceu na região do Languedoc, França, em 1863. As vinhas eram atacadas e, estranhamente, produziam uma “murchidão” nas uvas e que, rapidamente, alastrou-se por toda a França.


A indústria do vinho observava, aterrorizada, seu fim. A França, berço da produção industrial de vinho no mundo, quase foi à ruína e, praticamente, todo o mundo foi posto em cheque pelo acontecimento. Em 15 anos, 40% da produção vitivinícola do mundo já havia sido devastada. A falência tomou conta de muitas empresas do setor e o aumento da importação de cepas americanas, sem a observância da regulação existente, levou o crédito por tal fatalidade.


De forma totalmente casual, em meados de 1860, Jules-Emile Planchon, biólogo francês, observou um enxame da praga sugando as raízes das plantas, mas somente dez anos após a ocorrência, o entomólogo americano Charles Valentine Riley definiu a praga, tendo sido considerado um herói para o mundo do vinho.


No entanto, o Chile, graças as suas barreiras naturais, não foi acometido pela praga. Inteiramente protegido ao norte pelo Deserto do Atacama, ao leste pela Cordilheira dos Andes, ao sul, as Geleiras da Patagônia e a Antártida, e a Oeste, o Oceano Pacífico e a Cordilheira da Costa Oeste. Com tamanha proteção da natureza, o Chile não conheceu a devastação provocada pela filoxera, muito ao contrário, fortaleceu sua produção e inseriu seus vinhos de maneira definitiva no mercado mundial.


Além da divisão no mundo do vinho em Velho Mundo e Novo Mundo, hoje, costuma-se dizer que a produção de vinhos mundial divide-se em A.F e D.F – antes e depois da Filoxera.


Anos mais tarde, com a Segunda Grande Guerra, o mundo do vinho enfrenta, novamente, suas ameaças, e desta vez pelo homem. A guerra não só causou a destruição das plantações, como também as submeteram a furtos, declarações indevidas de propriedade e legislações restritivas ao plantio e consumo da “bebida sagrada”.


Quase 30 anos após o fim da segunda guerra, o Chile revogou a lei de restrições ao álcool e, na década de 80, com a abertura do mercado econômico, o país invade definitivamente as mesas do mundo.


Na década seguinte, um evento, no mínimo intrigante, foi a redescoberta da Carmenere, originária da região de Bordeaux, na França, e considerada extinta, pelo ampelógrafo francês Jean Michel Boursiquat, em 1994. O ampelógrafo observou que as cepas de Merlot demoravam a maturar, achou estranho, e exames de laboratório revelaram que, na verdade, tratava-se da Carmenere infiltrada silenciosamente e que, mesmo tendo sido levada por engano, encontrou condições absolutamente favoráveis ao seu desenvolvimento. Dou “vivas” a ele, particularmente, a Carmenere é uma das minhas favoritas.


Essa casta de uva ocupa 10 mil hectares da produção chilena e não é à toa. Além de ser um sobrenome, quando falamos em uvas do Chile, estamos falando de uma produção de vinhos suaves, agradáveis, pouco agressivos. Tendem a ser frutados e adocicados, com presença marcante de frutas vermelhas. Seus taninos são arredondados e de baixa acidez, o que contribui, e muito, para um rápido desenvolvimento e maturação de seus sumos, atingindo a complexidade com cinco ou seis meses de vida.


Com seu clima mediterrâneo, de verão quente e seco, inverno frio e chuvoso, o Chile consegue um equilíbrio perfeito para o desenvolvimento de suas cepas. As plantas, na fase de crescimento, encontram dias ensolarados e noites amenas, o que é uma combinação vitoriosa para a maturação da planta. As uvas conquistam intensidades de cores, taninos maduros e aromas frutados, produzindo vinhos maduros e complexos. São vinhos jovens e essa é sua principal característica. Não possuem aspecto de guarda, mas podem surpreender já no estampido de suas rolhas.


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Chef Glau Zoldan

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Praia da Gamboa | Garopaba | SC